“Chaîre kecharitomene, ho Kyrios meta sou.” Lc 1,28

Estamos no mês que a tradição popular dedica à Virgem Maria, e é de suma importância retratarmos um pouco de Maria na Sagrada Escritura, especificamente nos Evangelhos. Ao contemplarmos Maria nestes textos sagrados, somos tomados por um genuíno sentimento no qual percebemos a grandiosidade do amor dessa simples, mas esplêndida mulher, que assume sua posição na história da Salvação, a partir de sua maternidade, de seu discipulado, ou seja, de sua missão, que começa no seu Fiat, e atinge seu ápice na cruz, e é o que veremos a seguir.

A maternidade é o ponto de partida da vocação de Maria, a partir da qual Deus suscita diversos dons, sabendo a Virgem Santíssima assumir de modo perfeito para si esta missão especialíssima como mãe de Deus. Nos Evangelhos de Mateus e Marcos, por exemplo, vemos claramente dois pontos chaves para os estudos Mariológicos: a mulher que gera e a maternidade biológica.

Em Mateus, além da apresentação das gerações da qual nasceu Jesus, acrescenta-se o relato da infância, no qual Maria é a mãe virginal do Senhor. Daí que temos em diversos momentos a expressão “o menino e sua mãe”, a fim de demonstrar a íntima e profunda relação da mãe com seu filho. De modo semelhante, tal expressão é encontrada na cena em que Jesus está correndo perigo: então, José toma “o menino e sua mãe” e fogem para o Egito (Mt 2,14). Neste relato mateano, Maria é apresentada como a mãe de Jesus, e sua presença, apesar de silenciosa, é de grande eloquência na história da salvação, para a compreensão dos judeus.

Em Marcos, nosso Senhor questiona “Quem é minha mãe, e quem são meus irmãos.” (Mc 3,33) para demonstrar que a mãe e os irmãos são aqueles que fazem a vontade do Pai. Mesmo diante dessa situação, a comunidade de Nazaré já o reconhecia como filho de Maria: “Não é este o carpinteiro, filho de Maria, irmão de Tiago, Joset, Judas e Simão? E as suas irmãs não estão aqui entre nós?” (Mc 6,3). É um texto que se precisa tomar cuidado para não ser mal interpretado, sobretudo porque Jesus não estava negando biologicamente sua mãe, mas já estava catequizando a comunidade, mostrando quem seriam os verdadeiros parentes do Senhor, ou seja, aqueles que acolhem seus ensinamentos e o seguem.

Em Lucas, temos Maria como a discípula perfeita. Tal perfeição baseia-se no fato de que Maria ouviu a Palavra que lhe fora anunciada, meditou em seu coração e fez esta mesma palavra gerar frutos, ou seja, manifestou em sua vida de modo perfeito as características do autêntico seguidor de Jesus.

Por isso, é importante estabelecer o paralelo entre o Evangelista Marcos, que narrou sobre os ensinamentos de Jesus para demonstrar o discipulado daqueles que eram seus verdadeiros parentes, ou seja, aqueles que fazem a vontade do Pai, e o Evangelista Lucas, que mostra Maria como a verdadeira discípula, aquela que realiza em si a vontade do Pai (cf. Lc 1,38).

Neste sentido, São Lucas atribui à Maria a imagem de discípula justamente por acolher com sinceridade e sem reservas a Palavra trazida pelo anjo, que é respondida por ela: “Faça-se em mim segundo a tua Palavra” (Lc 1,38). Maria, desde então, guardava os fatos em seu coração e buscava frutificar aquilo que guardava. Ao encontrar com sua prima Isabel, por exemplo, esta exclama: “Bendito o fruto do teu ventre” (Lc 1,42) e sua resposta a Deus, transforma-se em gesto concreto do seu discipulado, ao se colocar a serviço de Isabel.

Em João, por fim, temos a imagem de Maria como a mãe da comunidade cristã. O Evangelista aborda o papel de Maria somente duas vezes em seu Evangelho: No primeiro Sinal de Jesus em Caná da Galiléia, e ao pé da Cruz onde Maria é vista na posição de Mãe da Comunidade Cristã.

No primeiro sinal de Maria, em Caná da Galiléia, ela é agente do sinal, indagando seu Filho sobre a necessidade e a hora de realizar o sinal. Nessa perícope joanina, temos Maria que, como Mãe da comunidade Cristã, também é pedagoga de seus discípulos, pois ensina-os e ajuda-os a crer n’Ele, ao afirmar: “fazei tudo o que ele vos disser” (Jo 2,5). Presente nas bodas, Maria é a primeira testemunha da manifestação da glória de Jesus e, por sua intercessão, antecipa a manifestação dessa glória para todos, pois Ela é mãe da comunidade dos discípulos e oferece o vinho novo da alegria que vem de Deus.

Ao pé da Cruz, Jesus a chama de Mulher, que naquele tempo, era um título de grandioso elogio, mais até do que o termo “Mãe”. Do mesmo modo, o autor do evangelho também chama de Mulher aquela que foi a primeira testemunha da ressurreição, como também a Samaritana.

Perto da cruz de Jesus, permaneciam de pé sua mãe, a irmã de sua mãe, Maria, mulher de Cléofas, e Maria Madalena. Jesus, então, vendo a mãe e, perto dela, o discípulo a quem amava, disse à mãe: “Mulher, eis teu filho!” Depois disse ao discípulo: “Eis tua mãe!” E a partir dessa hora, o discípulo a recebeu em sua casa. (Jo 19,25)

Nesta forte cena do evangelho, Maria é apresentada como uma mulher forte, que mesmo tendo diante de si seu filho único padecendo, permanece de pé diante da cruz. Nesta ocasião, recebe de seu próprio Filho a missão de ser a mãe da comunidade cristã, mãe de todos aqueles que a acolhem e vivem a Palavra de Deus, ensinando a partir de seu próprio exemplo a colocarmo-nos diante da Cruz como homens e mulheres que confiam na palavra do Senhor e aguardam confiantes a vitória de Cristo na Ressurreição.

Que neste mês Mariano, entreguemos aos cuidados da Virgem Maria a nossa vida e vocação, a fim de que possamos cultivar em nós, esse mesmo exemplo de fidelidade a Deus de verdadeiros filhos e fiéis ao seu chamado.

Este post tem um comentário

  1. Maria Helena Garcia

    Deus o abençoe Ítalo!

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