“Eu vos darei um coração novo e em vós porei um espírito novo; tirarei do vosso peito o coração de pedra e vos darei um coração de carne.” (Ez 36,26)

No período da Quaresma, os cristãos se preparam 40 dias para a principal festa do Cristianismo, a Pascoa. Desde o século II, os cristãos já realizavam sua preparação para a Páscoa, através do jejum, por exemplo. No Oriente, no início do século IV, surgiram os primeiros registros de que os cristãos faziam uma preparação de 40 dias para a celebração da Páscoa. No final deste mesmo século, acontecia o mesmo no Ocidente. Os quarenta dias, tem ligação com a simbologia bíblica.

Por exemplo, tanto nos escritos veterotestamentários, quanto nos escritos neotestamentários, o número 40 trás uma simbologia tanto belíssima, quanto riquíssima, para o tempo de preparação, espera, jejum e até mesmo correção.

No Antigo testamento, recordamos o dilúvio, onde choveu por 40 dias (Gn 7,4); a espera de Moisés pelas tábuas com o decálogo, no Monte Sinai, durou 40 dias; a peregrinação dos israelitas no deserto se preparando para entrar na Terra Prometida, que durou 40 anos (Ex 16,35); recordamos também que a cidade de Nínive viveu uma penitência de 40 dias, na esperança de escapar do castigo divino; e a viagem de Eli por 40 dias até o Monte Horeb, onde aconteceu a manifestação de Deus (1Rs 19,8).

Nos Evangelhos Sinóticos, a simbologia dos 40, também ocorre algumas vezes, como o jejum de 40 dias feito por Jesus no deserto, em preparação para sua vida pública (cf. Lc 4,2; Mt 4,3; Mc 1,3). Também nos Atos dos Apóstolos, há o relato que após sua ressurreição, Jesus aparece por 40 dias aos seus discípulos (cf. At 1,3). Em suma, 40 acaba nos indicando um tempo para nos preparar para algo que virá.

Considerando que a Páscoa, é para nós cristãos, a festa mais importante, de igual modo a Quaresma não pode ser vivida a qualquer modo. Portanto, não pode ser vivenciada como um tempo de sofrimentos e sacrifícios que não estejam conexos com a vitória de Cristo sobre o pecado e a morte em sua Páscoa. Se participamos de Seu sofrimento, é com o objetivo também de sermos participantes de Sua Glória.

A Igreja nos aponta caminhos para a nossa santificação perpassando pelo caráter da conversão e mudança de vida. A referência da esmola, do jejum e da oração, próprios do Tempo Quaresmal, são inseridos na celebração das Cinzas a partir do Evangelho de Mateus (Mt 6,1-8.16-18). Este convite para conversão, visam que o homem busque mudança consigo com o outro, com Deus e sua criação.

Acolhendo as palavras de Jesus, “convertei-vos e crede no Evangelho” (cf. Mc 1,15), o cristão consegue perfazer um caminho de iluminação e purificação, que é o que propõe a vivência dos 40 dias. Objetivo este, não somente a simples mudança de vida, mas a aceitação e recepção do grandioso amor de Deus em reconciliação do mundo consigo. Para isso, precisamos ser sinceros conosco mesmo para reconhecermos em nós a infidelidade, os momentos em que não agimos conforme o desejo de Deus, pela falta de conversão, por estarmos arrependidos, tendo a certeza que o perdão de nossas misérias e limitações sai unicamente do coração do Pai.

Este período é propício para que nosso coração de pedra seja substituído por um coração de carne (Ez 36,26), ou seja, estar preparados para acolher o amor misericordioso que vem de Deus, e interpelados por esse amor, possamos amar o próximo, com uma atitude de compaixão e solidariedade, assim como o próprio Cristo viveu até o seu último suspiro na vida terrena.

Atendendo ao apelo do Senhor a todos nós cristãos, a Quaresma nos provoca a começar uma mudança dentro de nós mesmos, e a partir dessa mudança interior, possamos mudar o exterior, as pessoas com o nosso testemunho. E toda conversão, parte de um comportamento de quem está arrependido, ao tempo que está disposto a viver coerentemente uma nova posição em relação a vida, segundo os ensinamentos do Evangelho de Jesus.

O início da quaresma se dá pela imposição das cinzas, onde o livro do Genesis faz memória de que “Lembra-te que és pó, e ao pó hás de voltar” (Gn 3,19), e que com esse gesto de penitencia e arrependimento, possamos renovar a nossa fé, em busca da verdadeira felicidade que somente Deus Vivo é capaz de oferecer.

E com essa celebração, no último dia 02/03/2022, Quarta-feira de Cinzas, os 11 seminaristas da nossa Diocese iniciou o ano formativo no Seminário Arquidiocesano de São José, no Rio de Janeiro.

Rezemos para colhermos grandes frutos nessa Quaresma, e também pela perseverança dos nossos jovens que buscam diariamente provar, através do seu testemunho, viver o chamado à santidade.

 

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