Todos ficaram cheios do Espírito Santo e começaram a falar em outras línguas, conforme o Espírito os inspirava. (At 2, 4)

Hoje celebramos a solenidade de Pentecostes. Passamos os cinquenta dias completos da Páscoa e, com esta celebração, o Tempo da Páscoa termina e voltamos ao Tempo Comum, o qual nos traz a vida pública de Jesus e da nossa missão. Desta forma, a solene cerimônia de hoje marca simbolicamente o início da igreja missionária. É a igreja, sob a orientação do Espírito Santo, levando a palavra de Deus, pregando o reino dos céus e indo até os confins da terra. Portanto, a Liturgia da Palavra hoje fala do recebimento e envio do Espírito Santo.

Nos Atos dos Apóstolos, Pentecostes acontece cinquenta dias depois da Páscoa. Daí o significado da palavra Pentecostes, que originalmente era, nesta data, celebrado a festa da colheita. Então significou a libertação dos hebreus e, com o advento do cristianismo, o sopro de Deus uniu seus discípulos na diversidade e os enviou a pregar. Assim vemos que é um conceito que adquiriu novos significados ao longo do tempo sem perder sua essência. Se Lucas colocou o Pentecostes cinquenta dias depois da Páscoa, João o colocou no domingo de Páscoa, o primeiro dia da semana, segundo o Evangelho de hoje. Embora eles o coloquem em momentos diferentes, não há divergência no significado dos dois. Pelo contrário, eles se complementam, apontando aspectos que enriquecem esse significado solene. Esta adição continua na segunda leitura, quando Paulo aponta para a ação do Espírito Santo na ação comunitária.

Ainda nos Atos dos Apóstolos, no dia de Pentecostes, os discípulos se reuniram no mesmo lugar. Enfatiza-se os elementos da unidade. O Espírito Santo é quem une. Esta semana, em particular, oramos pela unidade dos cristãos. Então estar juntos no mesmo lugar não significa fechamento como vemos nos Evangelhos, mas união. Lucas passa a relatar a manifestação do Espírito Santo em sinais teofânicos (ventos fortes) e símbolos (línguas de fogo), ajudando-nos a compreender melhor esse mistério que enche nossas vidas de discípulos e missionários como enche a casa onde estão.

As línguas de fogo se dividem e caem sobre cada pessoa, ou seja, o Espírito Santo enche cada pessoa, em sua individualidade. É a unidade na diversidade, como encontramos em nas Cartas Paulinas na liturgia de hoje. Todos receberam os dons do Espírito Santo que os unem, dando entendimento, sabedoria, temor de Deus, fortaleza, ciência, conselho e piedade. Eles começam a se entender, mesmo sendo tão diferentes um do outro. É a linguagem do amor que pode ser compreendida em qualquer lugar do mundo. Portanto, o Espírito Santo os capacita a proclamar os milagres de Deus em sua própria linguagem, ou seja, faz com que as pessoas entendam as informações e se entendam. Pentecostes é isso: o entendimento dos Povos em torno da Palavra de Deus.

A Igreja missionária reafirma continuamente esse compromisso de se fazer entender e levar a palavra de Deus a todos, começando pelas nossas paróquias e estendendo-se à missão Ad Gentes até os confins da terra, fazendo com que aconteça o que cantamos no Salmo da liturgia desta solenidade: “Enviai o vosso Espírito, Senhor, e da terra toda a face renovai.” O Espírito Santo nos renova e nos recria, fazendo nova todas as coisas, colocando em comum, nossa diversidade de dons.

Paulo enfatiza esse dado da solenidade de hoje, destacando na segunda leitura o senhorio de Jesus no Espírito Santo. Somos diferentes, temos dons diferentes, mas devemos estar unidos no mesmo Cristo Senhor. Essas diferenças de dons, serviços e ministérios tornam nossa igreja rica. Uma Igreja missionária ao serviço do Reino, unida pelo Espírito Santo, para o bem comum. Ser igreja é viver em unidade sem perder a especificidade de cada pessoa e de cada ministério. Paulo usa a imagem do corpo para falar de unidade nesta diversidade. O corpo é um, embora tenha muitos membros, e esses membros cumprem sua função de promover a unidade do corpo. Assim também acontece com Cristo, afirma Paulo nesta leitura. Não importa quem somos, importa como agimos em relação a Cristo e ao próximo.

Somos batizados em um único espírito, formando um único corpo e nos alimentando desse espírito para nos mantermos nessa união. Todos os que estão unidos a ele são fortes e não o temem. Quem não tem medo está disposto a aceitar a missão que o evangelho de hoje exige.

Depois do que aconteceu (Paixão e morte de Jesus), os discípulos se fecharam com medo. Os símbolos ao seu redor mostram essa condição paralisante (noite, porta fechada, medo). No entanto, era o primeiro dia da semana e um novo tempo começou. A fé na ressurreição deu lugar ao medo, que traz inquietação e falta de paz. Jesus entrou nessa situação derrubando as barreiras que os paralisavam e se coloca no meio deles. Este gesto de Jesus significa que a partir de agora, Jesus deve ser o centro de suas vidas. Aqueles que centram a sua vida em Jesus não temem nem se fecham, mas abrem corajosamente os seus corações a uma missão: Jesus coloca-se entre eles e abençoa-os com a paz. Ele sabia que os discípulos não tinham paz em seus corações. É impossível ser discípulo e missionário sem paz. Sem paz, a missão de Jesus não poderia continuar, então seu primeiro desejo após sua ressurreição foi que seus discípulos tivessem paz.

Repetimos este gesto de Jesus em todas as celebrações eucarísticas enquanto desejamos paz uns aos outros. Os desejos de Jesus são renovados neste gesto simbólico, mas imbuídos de significado teológico. Depois de lhes desejar paz, Jesus mostrou-lhes os sinais da crucificação, não deixando dúvidas de que, de fato, o próprio ressuscitado estava entre eles.

Hoje, de alguma forma, Jesus continua rompendo nosso isolamento, colocando-se entre nós, esperando a paz e deixando sua marca em nosso irmão sofredor. É o grito do crucificado ressuscitado, e chega aos nossos ouvidos para não esquecermos a missão que ele nos confiou. Depois desses preparativos, Jesus revelou sua vinda: soprou sobre eles o Espírito Santo. Pediu-lhes que o aceitassem e os enviassem como o Pai o enviou. Era o Pentecostes de João, no dia da ressurreição. Esta passagem nos traz de volta a Gênesis quando Deus criou o homem do barro e soprou sobre ele o Espírito Santo que dá vida. Aqui, temos uma nova criação. Com o sopro do Espírito Santo, Jesus recriou seus discípulos para a missão. A igreja missionária nasceu e está pronta para se expandir até os confins da terra.

Enviá-lo como o Pai o enviou significa, entre outras coisas, servir com humildade, mas com coragem e firmeza. Isso significa perseverar diante dos obstáculos e não desistir quando as coisas não saem como queremos. E prepare-se para enfrentar a matilha de lobos à espreita. Jesus chamou, autorizou e enviou seus discípulos para pregar. Assim temos a solenidade de Pentecostes, que lembra o sopro do Espírito Santo em nós para cumprirmos nossa missão como batizados.

Com esta celebração, voltamos ao Tempo Comum. A partir de agora, permitiremos que nossas vidas sejam guiadas pelo Espírito Santo e nos engajemos em missões dentro e fora da comunidade. Nosso compromisso missionário tornará nossa comunidade paroquial mais santa e perfeita, seguindo o exemplo da Santíssima Trindade, que há de ser comemorado no próximo domingo.

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