Nos últimos tempos muito tem se falado de missão. Aquilo que por um período estava esquecido e até mesmo evitado, agora retorna ao centro da Igreja, da nossa vida cotidiana enquanto povo de batizados. Entretanto, sabemos que, embora nos tenha marcado fortemente esse período de rejeição da missão, ela é a alma da Igreja e, também, sua atividade mais fundamental (AG 2), da qual sem ela, a Igreja perde sua razão de ser. Na verdade, ela é o caminho pelo qual a Igreja consegue expressar o desejo de Jesus Cristo, que sejamos um, como Ele e o Pai são um (Jo 10, 30-33).
No dia do funeral de um missionário, isso se torna claro, nítido. A missão nos revela que nós somos um e, diante de um caixão, no centro de uma igreja do interior da Bahia, essa realidade de fraternidade universal se expressou de maneira real, dolorida, humana, concreta.
Ali, naquela celebração de despedida, estava o padre Simeon Ibarra Torres, 84 anos (faria 85 no próximo 22 de abril). Já não era um estrangeiro, era o nosso missionário que deixou sua família, seus amigos, sua cidade natal, Elias-Huila, da Diocese de Garzón na Colômbia, e se enveredou pelas terras de Santa Cruz, veio habitar no meio de nós (Jo 1,14), no interior da Diocese de Itabuna, Bahia. O que nos fez recordar que a universalidade da Igreja se revela, se concretiza nas realidades de cada Igreja particular (Cf. LG 13 e 26).
Pois, durante mais de quarenta anos, evangelizou, sonhou, ajudou, sorriu e chorou, viveu no meio de nós, se fez um conosco e, a prova desse acolhimento e dessa acolhida foi que nesse dia doloroso de sua partida, ali estavam entre os padres, pessoas que vieram de longe, de cidades onde o padre Simeon havia vivido seu ministério missionário sacerdotal, e todos os que vieram por solidariedade cristã, estava uma família que chorava profundamente a partida de um ente querido e, no túmulo desta família brasileira, baiana, itororoense o sepultaram. Ele repousa no meio de nós.
Sinal do acolhimento e da acolhida que tanto ele, missionário colombiano, quanto nós, Igreja particular, baiana testemunhamos. São pérolas que só a missão pode produzir. É a Igreja, fraternidade universal, que se enriquece da missão, de cada encontro missionário vivido nas Igrejas locais.
Ele, já não era um estrangeiro, já não era um desconhecido, era um irmão, “um pai”, um amigo, um de nós. Era o nosso “mi santo”, como ele gostava de se dirigir a todas as pessoas, buscando reconhecer em cada um, em cada uma que ele encontrasse a santidade escondida, ou talvez, tentando deixar transparecer a sua, ou ainda, ajudando nossa diocese a buscá-la.
Só a missão nos possibilita tamanho encontro, tamanha partilhar. Somos um único povo, já não somos, nem judeus ou gregos, nem homens ou mulheres, nem escravos, nem livres, nem colombianos ou brasileiros, somos o povo de Deus (Gl 3,28), a família de Deus que com esse testemunho se torna visível, concreta, real.
Que aprendamos com a Páscoa definitiva do padre Simeon Ibarra, o missionário que veio habitar no meio de nós, que não importa onde o Senhor nos envia, Ele vai sempre favorecer que sejamos um com aqueles para os quais fomos enviados. E assim, nessa saída e chegada, nesse encontro e despedida vamos construindo a fraternidade universal desejada por Jesus Cristo. E vamos redescobrindo o porquê que a missão é central em nossa vida e na vida da Igreja. Para que sejamos um com o Pai que está no céu.
Pe. Badacer Neto.
Paróquia Sr. Deus menino.
Ibicaraí, Ba.
Pe. Badacer Neto, Diocese de Itabuna, pároco da Paróquia Sr. Deus menino, atuou como missionário na Diocese de Nampula, Moçambique, África, nas Pontifícias Obras Missionárias – Brasil, e fez seus estudos missiológico em Paris, França.
