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A Odisséia de Fé do Padre Simeón Ibarra: Da Colômbia para o Coração da Bahia

De lavador de pratos em São Paulo a pilar da Diocese de Itabuna, a trajetória do sacerdote colombiano, falecido aos 84 anos, é um testemunho de persistência e ardor missionário.

ITABUNA/BA – A história da Igreja Católica no Sul da Bahia perdeu, no último dia 10 de março, um de seus capítulos mais resilientes. O falecimento do Padre Simeón Ibarra Torres não marca apenas a partida de um clérigo, mas o encerramento da jornada de um homem que enfrentou a fome, o subemprego e a distância da pátria para atender a um chamado que considerava sagrado.

Origens e Vocação Europeia

Nascido em 22 de abril de 1941 na pequena Elias, na Colômbia — uma cidade que, com seus 3.000 habitantes, já parecia pequena para o tamanho de sua fé —, Simeón deu seus primeiros passos vocacionais no Colégio Vocacional São Luiz Gonzaga. Ainda jovem, ingressou na Comunidade Fraternidade Sacerdotal, em Bogotá, onde moldou seu espírito sob dois pilares: o cuidado com padres em dificuldade e a Adoração Perpétua ao Santíssimo Sacramento.

Sua formação levou-o para longe do continente americano. Durante 18 anos, viveu como irmão da Fraternidade, passando uma década na França e outros anos na Suíça. Mas o destino reservava ao futuro padre um desafio que nenhuma universidade europeia poderia ensinar.

O “Golpe” em São Paulo e a Luta pela Sobrevivência

Nos anos 60, a vida de Simeón tomou um rumo inesperado. Atraído pelas promessas de um padre chamado Marcelo, que buscava seminaristas para fundar uma comunidade no interior de São Paulo, Simeón e outros dois companheiros abandonaram tudo e vieram para o Brasil.

Ao desembarcarem, a dura realidade: a comunidade prometida não existia. Sozinhos e sem recursos em uma terra estranha, os outros dois seminaristas desistiram e voltaram para a Colômbia. Simeón, contudo, ficou. Para sobreviver durante esse ano de provação, o futuro sacerdote não se esquivou do trabalho braçal: lavou pratos em restaurantes e, mais tarde, conseguiu um emprego no Banco Itaú. Essa fase moldou o padre humano e empático que os fiéis de Itabuna conheceriam anos depois.

O Encontro com o Sul da Bahia

Após retornar à Colômbia para concluir a Teologia e ser ordenado em 29 de julho de 1978, o Padre Simeón sentiu que sua missão era, de fato, o Brasil. Tentou o Paraná, mas o clima e a cultura sulista não ecoaram em seu coração missionário.

O divisor de águas foi o encontro com Dom Homero Leite, primeiro bispo da recém-criada Diocese de Itabuna. Na época, a diocese contava com apenas cinco padres. O convite de Dom Homero foi direto e aceito com o mesmo ardor de quem lavava pratos anos antes: era hora de desbravar o interior baiano.

O “Apóstolo de Itororó”

Chegando à região em 1979, Padre Simeón foi designado para a Paróquia Santo Antônio, em Itororó. Ali, permaneceu por oito anos (1979-1987), período em que se tornou uma lenda local. Não se limitava ao altar; cruzava estradas de terra para dar assistência aos distritos de Rio do Meio e Itati, além de estender sua mão pastoral às cidades de Firmino Alves, Santa Cruz da Vitória e Itajú do Colônia.

Após uma breve passagem pela Catedral São José e pela Paróquia São Judas Tadeu entre 1987 e 1988, Padre Simeón retornou à sua pátria, a Colômbia, onde atuou por sete anos. No entanto, o laço com a Diocese de Itabuna era inquebrável. Em 1996, retornou definitivamente ao Brasil, assumindo a Paróquia Senhora Santana, em Floresta Azul.

Sua liderança foi marcada pela itinerância e pelo zelo missionário:

  • Floresta Azul e Itapé: Administrou ambas as cidades simultaneamente, culminando nas históricas Santas Missões Redentoristas de 2006.
  • Potiraguá: Em 2009, assumiu a Paróquia Santa Teresinha, onde permaneceu por sete anos, também promovendo as Santas Missões em 2016.

O Retorno a Itororó e o Sacrifício do Altar

Em 2018, aos 77 anos, Padre Simeón recebeu sua aposentadoria oficial. Mas, para um coração missionário, “aposentar-se” nunca significou parar. Ele retornou a Itororó, cidade que o acolheu no início de sua jornada baiana, para colaborar com o Padre Euvaldo.

Os últimos anos, contudo, trouxeram a provação da doença. A partir de 2021, com a saúde debilitada, Simeón enfrentou a maior de suas dores: a impossibilidade física de celebrar a Santa Missa. Para quem fez do altar sua razão de viver e da Eucaristia seu sustento, o silêncio do afastamento das celebrações foi seu último e mais difícil ato de entrega.

Legado Eterno

Padre Simeón Ibarra Torres faleceu deixando para a Diocese de Itabuna o exemplo de que a missão não tem fronteiras e a devoção não tem fim. Ele partiu para a casa do Pai como viveu: confiando plenamente na Misericórdia que tanto pregou.

Sua marca registrada era a espiritualidade profunda herdada da adoração ao Santíssimo, mesclada a uma energia missionária que não conhecia cansaço. Padre Simeón não era apenas um administrador de paróquias; ele era o pastor que cheirava às suas ovelhas, especialmente as mais distantes e humildes.

Legado

Padre Simeón Ibarra Torres parte deixando um rastro de comunidades fundadas, vocações despertadas e, acima de tudo, a lição de que o “Sim” a Deus exige, muitas vezes, a coragem de lavar pratos em um mundo que só quer o brilho dos altares. A Diocese de Itabuna despede-se de seu missionário colombiano com a gratidão de quem foi amado por um homem que fez do Brasil sua verdadeira casa.

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