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VIVER NO MUNDO SEM PERTENCER AO MUNDO – a fidelidade do cristão no livro de Daniel

São Jerônimo (340 – 420), sacerdote do século IV, cunhou uma célebre máxima: “Ignorar a Escritura é ignorar a Cristo”[1]. Este mesmo santo doutor foi o grande responsável pela tradução da Bíblia para o latim (língua oficial da Igreja na época), a pedido do Papa Dâmaso I. Não obstante, neste mês de setembro, a Igreja no Brasil fomenta e evidencia a importância da Sagrada Escritura em nossa vida e cotidiano. Sendo assim, há 55 anos celebramos este mês como o Mês da Bíblia, desde que a CNBB abraçou e expandiu o projeto para todo o território nacional.

Neste ínterim, a Igreja no Brasil propõe o estudo do Livro de Daniel através do lema: “Seu reino jamais será destruído”[2] (cf. Dn 7,14). Por conseguinte, é imperativo esclarecer que, para estudar qualquer livro bíblico, deve-se observar passos fundamentais que favoreçam um justo e adequado entendimento. O estudo introdutório do Livro de Daniel exige a articulação de três pilares: o seu contexto histórico, situado na violenta dominação helenística sobre a Palestina no século II a.C., caracterizada pela imposição cultural e pela profanação do Templo; o seu gênero literário, que não é puramente profético, mas estritamente apocalíptico, utilizando visões, símbolos e metáforas para interpretar as tribulações históricas e o problema do mal a partir dos desígnios de Deus; e a sua posição no cânon bíblico, que difere entre a tradição hebraica — que o posiciona entre os Escritos (Ketuvim) — e a tradição grega/Vulgata, que o inclui entre os profetas maiores em razão das formas visuais de revelação presentes no texto[3].

Compreendidos esses pilares, a narrativa de Daniel revela a sua grande intuição espiritual e teológica: a conduta do fiel em meio a um ambiente hostil. Lançado no coração da Babilônia — símbolo dos impérios opressores e autossuficientes —, Daniel e seus companheiros exercem suas funções civis e respeitam as autoridades, mas estabelecem um limite inegociável para a sua fé. Antes de enfrentarem a cova dos leões ou a fornalha ardente, essa fidelidade se consolida na rotina diária: na abstinência dos banquetes idólatras (jejum), na disciplina infalível da oração perseverante e na coerência de vida. Quando a cultura circundante exige a profanação da sua fé ou a adoração aos ídolos, é essa vida de oração e mortificação que os sustenta para preferirem os insultos e desolações a dobrar os joelhos diante do poder humano.

Podemos, contudo, mediante essa postura de Daniel, lembrar daquilo que o Doutor de Hipona escrevera em sua obra A Cidade de Deus[4]. Ao contemplar a história, o Doutor da Graça descreve a coexistência de duas realidades espirituais: a Cidade Terrena, movida pelo amor-próprio levado até o desprezo de Deus e marcada pelo desejo de dominação; e a Cidade de Deus, movida pelo amor a Deus levado até o desprezo de si. Na teologia agostiniana, pode-se inferir que a Babilônia é a perfeita figura da Cidade Terrena — efêmera, orgulhosa e fadada à ruína —, enquanto Jerusalém representa a Cidade Celestial. Daniel nos ensina que o fiel habita na Babilônia como Igreja Militante: ele serve à sociedade onde está inserido, mas recorda continuamente que sua verdadeira cidadania não pertence às estruturas passageiras deste mundo.

É precisamente nessa tensão entre o tempo e a eternidade que se insere o ápice da teologia apocalíptica de Daniel. As “estátuas colossais” de pés de argila e as “feras vorazes” que simbolizam os grandes impérios do mundo revelam a fragilidade e a efemeridade de todo poder humano pretensioso. Em contraposição à ruína inescapável desses reinos temporais, o profeta contempla a visão sublime de “um como Filho de Homem” vindo sobre as nuvens do céu (Dn 7,13-14), a quem é entregue o domínio, a glória e o reino. Essa intuição apocalíptica ganha seu pleno cumprimento nos Evangelhos, quando o próprio Jesus assume o título de Filho do Homem para afirmar sua soberania divina sobre a história, a sua vitória sobre a morte e o caráter inabalável do seu Governo.

Portanto, ao aproximarmo-nos do fim do mês de setembro, deve ficar para nós que a mensagem do Livro de Daniel ressoa com urgência para a Igreja de hoje. Viver no mundo sem pertencer ao mundo exige discernimento, coragem, oração e mortificação constante. Em meio às incertezas e perseguições do presente, os cristãos são fortalecidos pela esperança escatológica da ressurreição dos mortos (Dn 12), sabendo que o mal não tem a palavra final. As potências humanas e as estruturas políticas passam com o tempo, mas o Reino do Filho do Homem — fundado na justiça e na verdade — permanecerá para sempre.

REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS

AGOSTINHO, Santo. A Cidade de Deus: parte I (livros I a X). Tradução de J. Oliveira Santos e A. Ambrósio de Pina. Petrópolis: Vozes, 2002.

BÍBLIA de Jerusalém. Nova edição revista e ampliada. São Paulo: Paulus, 2002.

CONFERÊNCIA NACIONAL DOS BISPOS DO BRASIL. Mês da Bíblia 2026: Livro de Daniel: “Seu reino jamais será destruído” (cf. Dn 7,14) – Texto Base. Brasília: Edições CNBB, 2026.

DOM BASÍLIO. Notas de Aula: Introdução Teológica ao Livro de Daniel. 2026. Notas de aula.

JERÔNIMO, Santo. Comentários sobre o Profeta Isaías: Prólogo. Tradução e notas. São Paulo: Paulus, 2019. (Coleção Patrística).


[1]SÃO JERÔNIMO. Comentários sobre o Profeta Isaías. Tradução e notas. Coleção Patrística. São Paulo: Editora Paulus, Prologus, 1

[2] BÍBLIA de Jerusalém. São Paulo: Paulus, 2002.

[3] Notas de Aula – Dom Basílio OSB.

[4] AGOSTINHO, Santo. A Cidade de Deus.

Por: Semianrista Rafael Jônathas.
2º ano de Teologia
2º ano da Configuração

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